quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Rosto de Deus


(A Marcos Vinícius, sj e a Zé Raimundo

Vejo o sol se pôr
e na brisa desta tarde que finda, meu coração é horizonte e saudade. Nessa paz descanso e espero ouvir os passos de quem no olhar me devolva o Éden perdido.

Da porta do meu quintal contemplo um dia claro. Dia de sol como qualquer outro. Um lampejo me inquieta. Deixo que uns poucos passos me levem além dali e logo estou perdido num vagar de lembranças. Sento-me naquele batente de tantos anos, sem pensar que sentava. A memória assenhoreava-se de mim.
Recordava os encontros há não muito passados. Revia o olhar calmo, o passo tranqüilo, a acolhida de quem me esperava e queria ver. E lembrava também de mim, ali, receoso de tudo quanto poderia dizer para além do recurso das palavras.
E quanta atenção à minha voz. Eram só retalhos de minha história o que eu apresentava. Mas a escuta tão terna me sacralizava, tornava-se o Tabor onde reboava a profecia que me restituía todo valor. Imenso o desconcerto daquela hora... No olhar de um outro o meu muito pouco ressignificado.
Eu nunca soube como retribuir tamanho dom. Minhas mãos, as tinha eu sempre vazias e é esse o fundamento de minha gratidão.
Torno a mim e sou todo contentamento. Deus me visitou e seu rosto era o de um amigo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Lúcia

Parou diante do espelho que havia ali pendurado na parede de seu já antigo quarto. Olhou-se com a profundidade da tristeza que naquela hora lhe tomava. Percebeu nas feições as marcas dos dias que lhes tinham ido. E eis que se reconheceu mais do que nunca desfigurada.
Não contava ainda cinqüenta anos e nem eram as rugas as marcas mais cruéis do tempo. Chegou até ali e não sabia o que fizera da juventude de seus anos. Casara-se uma única vez. Não tivera filhos. O marido, que aceitara como capricho do destino que lhe cabia, estava deitado, bêbado, praticamente desmaiado na cama de que há pouco se levantara. Não chorava. As lágrimas, rios em tantas horas, naquele momento sequer insinuavam-se nos seus olhos. Doía sim. Sentia uma dor que jamais seria capaz de expressar por palavras. Ainda mais ela que sempre falou pouco. Acostumara-se ao silêncio, mais que isso, resignara-se.
No espelho via um oposto ruim que lhe fazia contorcer-se por dentro. Seus olhos fundos, seu rosto magro, seus cabelos sem viço. Reconhecia-se uma triste figura. E assim, estática ante o reflexo que denunciava a tragédia de sua condição, quis gritar, pedir ajuda. Conteve-se, porém. Sabia que não haveria quem a escutasse. Era uma desgraçada que deveria terminar seus dias, que talvez por crueldade de Deus fossem ainda muitos, como os começou. Compreendia a insignificância de sua existência. Sabia-se um desastre do acaso. Não, não era menos-valia ou auto-piedade o que a fazia pensar assim. Apenas tinha consciência de si, da realidade perversa em que se deixara pôr.
Eram muitas as amarguras que amealhava naquele momento. Os sonhos que não tivera, os planos que não foram feitos, a vida que até ali era sorvida como um fardo. Jamais experimentara uma grande alegria, uma emoção que lhe tomasse inteira. Seus dias, ela os contava no itinerário que fizera entre a casa paterna e a da família que não construíra. Mas enrubescia só de pensar que poderia transpor os limites daquela sua condição. Estava mais do que convencida de que somente a morte poderia libertá-la daquele cativeiro. Esperaria que a grande dama sombria a visitasse, pois também não tinha coragem de antecipar a própria partida.
Porém, quando por entre as telhas alguns raios do sol que nascia iluminou aquele espaço, olhou ao redor de si e pela primeira vez estranhou-se naquele entorno. Um desinstalar-se já lhe movia. A reflexão não lhe entorpeceu como em tantas outras vezes. Prendeu o cabelo, pôs um de seus vestidos, o menos surrado que encontrou. Juntou numa sacola umas poucas peças de roupa. Saiu e fechou amedrontada a porta. Foi-se dali sem qualquer saudade, sem nenhuma despedida. Não fizera qualquer projeto, apenas sabia que era hora de ir.
Quando se percebeu sua partida, ninguém foi capaz de compreender seus motivos. E houve quem atribuísse à loucura aquele seu gesto. Acreditavam que se tornara uma louca errante pelo mundo. Mas não. Ela enfim havia descoberto que podia escolher o caminho de seus passos.