quinta-feira, 29 de maio de 2008

Seria feliz

Quando o conheceu era ainda uma menina. Tinha dezesseis quase dezessete anos. Namoraram por três anos e meio, depois ficaram noivos. Sua família apoiou sem reservas. Era o sonho de seus pais ver casadas todas as filhas. Ela, então, a mais velha, devia abrir caminho para as outras; dar o exemplo.
Ele gostava dela, ela sabia. Ela gostava dele, disso não duvidava. Não parecia um casal muito apaixonado, mas era por causa do jeito dele. Rapaz sério, muito responsável. Aos vinte e dois anos já era gerente de uma concessionária de carros, a segunda maior numa cidade de médio porte. Não poderia parecer meninote, dado às extravagâncias. Sua posição lhe impunha isso. Depois, o que importava era o sentimento que os unia e os planos para o futuro. Casariam, teriam filhos, uma casa bonita. Por certo seriam uma família feliz.
Sábado era sagrado. Chegava, dava boa noite a seus pais, que lhe tinham na conta de um rapaz de boa família, trabalhador, homem de futuro. Ela o conduzia à varanda, onde conversavam sobre os acontecimentos da semana. Talvez por isso a conversa fosse sempre a mesma. Beijavam-se, trocavam carícias. Ela, às vezes, ousava um pouco mais. Dava-lhe a entender que podia ir mais além nos carinhos, mas ele nunca lhe faltou com o respeito. Os pais dela jamais iam à varanda quando eles estavam lá. A irmã mais nova, sim, às vezes aparecia com umas conversas sem importância, nada que um olhar reprovador não corrigisse. Tinham, portanto, toda liberdade para sair um pouco da medida, mas ele se mantinha sempre muito comedido. Ela compreendia. Acreditava que ele queria esperar o tempo certo para maiores intimidades. Seu comportamento era de um lorde inglês. O que só tornava maior sua admiração por ele.
Algumas amigas, certa vez, insinuaram que ela deveria abrir os olhos com o namorado. Talvez ele não fosse tudo aquilo que ela imaginava. Não mostraram nada de concreto. Só fizeram algumas insinuações de que talvez ele a enganasse, que não gostasse dela realmente. Mas ela não deu importância. Devia ser inveja. Num mundo tão mudado é difícil encontrar um rapaz como ele, que queira casar, construir família. Disso estava mais do que certa e não deixaria que ninguém destruísse sua felicidade. É verdade que ele viajava muito por causa do trabalho e poderia ter uma amante em outra cidade, mas não admitiria tal pensamento. Não podia deixar-se envenenar. A confiança é a base de uma boa relação. E para evitar maiores aborrecimentos, afastou-se daquelas invejosas.
O tempo passou e se encarregou de avizinhar a data do casamento. Faltava apenas uma semana. Aquele era o último sábado em que se veriam na condição de noivos. Na semana seguinte seriam marido e mulher. E ela que se guardara como um botão, com justa ansiedade aguardava o momento em que seria flor aberta ao homem de sua vida. Seria só dele como nunca admitiu pensar ser de qualquer outro. Dali por diante arderia por ele sempre que a quisesse. Saberia ser esposa, amante e mãe. Sua vaidade seria vê-lo realizado como homem. Ele nunca lhe pedira isso. Jamais lhe fez nenhuma exigência. Parecia não ser da natureza dele lhe pedir alguma coisa. Chegava a ser um tanto indiferente. Mas ela sabia muito bem o queria. Seria feliz.
No horário de sempre chegou ele. E antes de ir sentar com ela na varanda, falou com seus pais como sempre o fizera. Sempre o mesmo tom cerimoniosamente seco. Era interessante ver que mesmo depois de tantos anos, ele ainda conservava aquelas formalidades. Quereria manter certa distância? Não, ela não via dessa forma, talvez alguém que olhasse de fora pudesse ter essa má impressão, ela não. Compreendia aquele seu jeito de ser. Sua família também nunca reclamou.
Naquele dia, no entanto, ele não estava o mesmo. Segurou suas mãos e pediu que o escutasse. Há muito quisera, começou, dizer o que lhe diria naquele momento, mas nunca achou meio. Ou faltava a coragem ou as circunstâncias não eram favoráveis. Sabia o quanto era importante para ela o casamento. Acreditava em seus sentimentos e também ele lhe queria muito bem. Ela, porém, não compreendia o rumo daquela conversa. Não poderia haver algo tão importante para ser dito naquela hora. O casamento era no sábado seguinte. O que ele quisesse lhe dizer poderia esperar. Teriam a vida inteira para revelar um ao outro o que quisessem. Era melhor tratar dos últimos preparativos da cerimônia. Isso era mais importante. Ele, no entanto, insistiu e como ela não quisesse lhe dar ouvidos, num rompante de ira e desabafo, disse que não haveria mais casamento. Não podia casar-se com ela, na verdade jamais quisera tal coisa. Se aceitara aquela situação foi por imposição das circunstâncias, as pessoas exigiam isso dele. E depois, não queria magoá-la. Mas casar nunca foi um real desejo seu. Estava decidido: aquele era o fim daquela história.
Não, ela não tinha condições de entender tudo aquilo. Não se sentia capaz. Via destruído o mundo que construíra e suas esperanças, seu futuro esvaírem-se por entre os vãos dos dedos. Foram cinco anos de sua vida empenhados na preparação das bodas. Como não haveria mais casamento? E os filhos, a família, a casa com que sonhara? Tudo desfeito? Tudo em vão? Ele só poderia estar brincando. Ele a amava ela sabia, sempre soube. Queria testá-la, ver o limite de sua paciência. Era isso. Só podia ser isso. E rindo entre o desconcerto e o medo, pediu que parasse. Ele a estava assustando com aquela brincadeira. Entretanto, ratificou ele tudo o que havia dito. E acrescentou que o motivo não era qualquer defeito nela, não. Ela era maravilhosa, seria uma esposa perfeita. Ele tinha absoluta certeza disso. Mas é que sua alma não cabia nos braços de uma mulher. Tinha em outros abraços o aconchego que realmente desejava. Amava e era amado. Completava-se. Estar com ela era negar-se e já não podia mais. Assumiria seu relacionamento com aquele outro de quem não diria o nome. Sabia muito bem o que queria. Seria feliz.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Aprendizado

Todos estavam passando com sua pressa, suas lidas, suas buscas. Uma multidão de rostos. Rostos múltiplos. Cansados, inquietos, aflitos, quando não impassíveis. Em comum mesmo tinham a indiferença com que não se viam. Tudo, portanto, na mais perfeita ordem. É assim o centro de uma cidade daquele porte num dia útil. Cada um com seus problemas para resolver, suas contas a pagar... A vida tem que ser ganha.
_ Filho meu tem que saber proceder!
Berrou alguém perturbando a paz daquele cenário. Um homem na massa de passantes, que lhe olhou perplexa e confusa, procurando compreender a razão do escarcéu.
_ Não criei filho pra isso! Essa vergonha minha família nunca teve. Não é agora que vai ter.
Ao seu lado só um rapaz, desconcertado, que lutava para disfarçar as lágrimas que insistiam em lhe iluminar os olhos, enquanto entre gestos desajeitados e frases desconexas, ensaiava uma argumentação que aplacasse a fúria do pai. Esforço vão.
_ Calado! Que isso não tem explicação – disse com a mão erguida ameaçando bater.
Alguns dos passantes concordavam com a sua atitude. Pai é para isso mesmo. Deve corrigir, ensinar o que é certo, diziam. Outros eram solidários com o rapaz. Achavam que a bronca deveria ser dada em casa, na intimidade do lar. Ali, na rua não. Era vergonhoso demais para o menino. É verdade que o gritinho que ele deu, ao se assustar com o choque de dois carros, não foi nada másculo, mas também não era pra tanto.
_ Eu já ouvi os vizinhos falando umas coisas suas, desse seu jeitinho. Mas eu estou lhe avisando: ou você se concerta ou eu lhe dou um jeito. Que isso pra mim é safadeza, falta de vergonha.
O moço não sabia mesmo como se defender. Desistiu, resignou-se. Restou-lhe somente esperar que o pai se acalmasse. Nada mais.
Aos poucos, os berros foram se tornando resmungos e os dois foram voltando ao anonimato dos passantes, seguindo na direção a que se propuseram antes do incidente. E as pessoas foram deixando de lhes prestar atenção. Tinham mais o que fazer. O jovem, entretanto, constrangido e magoado sentia a culpa de ter causado tudo aquilo e prometia a si mesmo que dali por diante seria homem. Aprendera: nunca mais se assustaria!