A Cleide (Keu)
Os homens são o que aprendem ser.
Os homens são o que aprendem ser.
Os puros de coração veem melhor.
Que eles nos ensinem.
Que eles nos ensinem.
Haverá quem me chame de louco por dizer de minhas verdades o essencial. Serei assim mesmo e com todo zelo. Não me vestirão roupas que me desnudam nem me levarão aos buracos de sua cegueira. Estarei sempre no avesso de seus conceitos. Imagino uma outra globalização.
Pouco me importo se dizem que minto e me escondo. Não quero suas receitas, seus mapas, suas pistas. Não nasci para suas bandeiras e seus sistemas, não me cabem suas bolsas sem valores. Há muito me incomoda esses ciscos nos olhos e toda essa imprecisão. Que fiquem com suas traves e com seu jogo. Deploro os seus consórcios, a comichão de suas mãos e seus sacos furados.
Os Lázaros em suas portas esperam migalhas, mas toda aquela comida é para quem entende de especulação. Estes roubaram do mundo a alma e seu deus tem pés de barro. Leviatã nada poderoso. A ele rendem um sacrifício “africano-afegão-iraquiano-latino” entre jingles meditativos e fazem cair sobre as poças de sangue chuvas de prata. E aplaudem, riem, exultam, regozijam-se.
Mas agora os vejo agonizar e pedem compaixão. Querem a parte do meu pão que ainda não levaram, mas não admito que me incluam nesse pacote de Nação. Não devo, por isso não tenho o que pagar. Vivem de suas mentiras, hão de morrer por causa delas. Nada posso fazer se construíram seu admirável mundo novo num fundamento caduco: o sol na pele negra e o tronco, os bolsões de miséria e os lixões, os ataques mal justificados e as ocupações. Tivessem misericórdia e encontrá-la-iam.
São muitos aqueles que choram sem consolo e tantos desses esbarram em mim. São mães e são mulheres; são pais e são filhos. Gente com quem compartilho a existência como uma dor; que labuta e que espera, que assiste novela e faz carnaval. E que ainda se enfeita e se ajeita pra namorar. Por vezes escondo deles minhas lágrimas e disfarço o embargo de minha voz. Os vejo e sinto sua dor e me incomodo e me comovo. Não sei ao certo o que fazer e nem posso fazer muito, disso eu sei. Por isso, acendo essa fogueira e os convido a dançar em volta, talvez assim, numa dessas voltas que o mundo dá, a claridade do fogo nos faça todos nos vermos melhor e a ciranda seja uma só e o pão seja nosso em cada dia. Assim seja!