sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A vela








A vela em seu trabalho faz a luz que por hora me ilumina e a vida transcorre lenta seu curso neste instante que assumo meu. Enquanto a vela se consome e produz tal claridade, busco a palavra, certa ou não, que seja capaz de dizer da minha ânsia e do meu cansaço de existir sem tréguas. Eu quero a ponte entre estes meus dias e um outro lado que vislumbro sem ver e que talvez exista.
Há uma música que escuto nas trevas desse silêncio. São canções pequenas, de uma nota só. Mas minhas tristezas não cabem num acorde e eu já não canto. Dias houve que foram belos e havia mais luminosidade no meu quarto.
Na verdade, como homem vivo de palavras, pão cotidiano de minhas labutas, e recolho entre as mãos as alegrias que me couberam, não muitas nem poucas, apenas simples e belas; as que eu soube ter, feitas de sorrisos, de cuidados maternos e de alguns prazeres.
Nessa vela fito a linguagem de um mistério que não está aí. Ela se apequena, mas não a sua luz. E eu nos meus passos vou por caminhos de inconstâncias, tropeço em ausências e às vezes caio. Há os que me oferecem atalhos, mas eu procuro a ponte.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Em tons de azul

Em ruas de outono vão meus passos. Passos lúcidos como os de um bêbado. Deixei sobre a mesa uma folha em branco e uma esferográfica azul. Azul é a cor de meus amores. Queria narrar os meus desenganos. Sou um homem do meu tempo. Nessas ruas poucas vezes vejo quem por mim passa. Tenho pressa. Ver leva tempo.
O céu é azul. Eu o amo. Fosse dia de sol, eu tentaria contar seus raios. Queria ser dono de pelo menos um. Rasgaria com a graça de sua luz esse cinza frio. Os meus enganos são muitos. Pensava em meus relatos. Rezei antes de sair de casa. Quase sempre rezo. Tenho alguma fé. Em verdade, em verdade prefiro a dúvida. Duvidar é criativo.
Os meus amores são lindos. Todos têm tom de azul. Triste mesmo é a despedida. Mas eu não pude me despedir. Ciscos só caem em olhos abertos. Chorar é uma forma de dizer que doeu. Lágrimas já fizeram brilhar meus olhos. Sou tão pequeno para amar. Aquelas são pegadas de alguma dor. Eu sei que são. Perdoar ainda me custa muito.
Essas ruas me parecem de pedra. Pedras têm qualquer cor. Corações têm tons de vermelho. Tenho tantas lembranças felizes. Meus pés descalços doem nesse chão de pedras. Recordar é lembrar que alguma coisa ficou para trás. Os dias são sempre gentis. Um cede ao outro seu lugar. Cada hoje é um recomeço.
Queria plantar um jardim. Flores há de muitas cores. São lindas as de tom azul. Aquelas presenças me cativam; não me prendem. Raízes. Nos seus olhos o que sou está guardado. Às vezes me perco nessas ruas. Não tenho mapas de minhas rotas. Certezas são tão absolutas quanto incertas. Reencontrar-se é dom de amigo.
Gosto de cartas de amor. Há nelas tanta beleza. O amor cabe em qualquer lugar. Éramos crianças demais. Só nós não víamos. Fossem os corações puros, os olhos também seriam. Não há razões, somente saudade. Eram tão lindos aqueles seus cabelos negros. Querer bem é tão bonito. Fica eterno o que se amou.
Chuva de outono é bonita. Nem sempre há luar no céu. Chuva é água que volta em busca do mar. A folha continua em branco. Meus amores são de homens e de mulheres, de lugares e de palavras. Caminhar por entre a gente é dar voltas. Em algum lugar está o começo. Eu sou só um homem. Já não sei se escrevo. A vida tem muitas cores e seus tons de azul. Eu, só meus passos por essas ruas de melancolia.

sábado, 1 de novembro de 2008

Triste engano

Eram quase dez horas quando Julio passou pela Praça da Bandeira. Voltava do teatro e com pressa ia para um ponto de ônibus que havia próximo dali. O centro no meio da semana naquele horário era estranho. Um deserto. Bem diferente do que era durante o dia. Gente indo e vindo, bancas sobre as calçadas, ambulantes, carros de som, pessoas gritando. Uma efervescência de tantos matizes que seria praticamente impossível descrevê-la em por menor.
Numa das lojas por que passava, alguns homens trabalhavam consertando a fiação. Conversavam e riam. Nem parecia que trabalharam o dia inteiro e que ainda ficariam ali até a madrugada. Estavam acostumados. Sabiam que o importante era entregar o serviço no prazo. Isso dava credibilidade à empresa. Julio olhou para eles quase sem os ver. Queria mesmo era chegar logo ao ponto. Tinha medo de estar ali naquele horário. Desejava que seu ônibus não demorasse a passar. E além do mais, estava cansado, com fome e teria de acordar cedo na manhã seguinte.
O rapaz era estudante. Também trabalhava. Ajudava os pais com as despesas de casa. Tinha dois irmãos. Um mais velho e outro mais novo que ele. Sua mãe o esperava, só dormiria depois que ele chegasse. Era sempre assim quando ele saia. Não saia muito. Preferia ficar em casa ou com a namorada. Namoravam há um pouco mais de um ano. Geralmente saiam juntos, mas naquela noite não.
Assim que chegou ao ponto, o celular vibrou no seu bolso. Não atendeu. Calculou o risco de ser assaltado. Estava sozinho, devia ter cuidado. Supôs que fosse sua namorada ou sua mãe. Quem quer que fosse teria de ligar depois ou esperar que ele ligasse.
Próximos dali uns mendigos perambulavam pela rua. Outros dormiam debaixo de marquises. E uma criança chorava ao colo da mãe que tentava acalmá-la. Mas Julio estava mesmo era ansioso por chegar em casa. Era indiferente àquele cenário.
O pai de Julio lhe propôs que entrasse numa auto-escola. Achava que ele devia ter uma moto. Era mais barato e mais prático que ficar esperando ônibus. Até prometeu ajudá-lo com as prestações do consórcio. A demora do transporte foi um argumento que o fez dar razão ao que o pai lhe tinha dito há alguns dias. Se tivesse uma moto já estaria em casa. Ponderou que poderia pegar um moto-táxi. Mas estava ali já uns dez minutos e nenhum havia passado. Táxi, não; seria caro.
Do outro lado da avenida, um carro parou do lado da igreja. Era uma igreja antiga. Há não muito tempo tinha sido completamente reformada. Ganhou nova iluminação e seus vitrais foram restaurados. Do carro saltou um desses homens que transformam todo o corpo para se parecerem com mulheres. Uma travesti. Tinha uns vinte e cinco anos talvez. Saltou e ficou por ali mesmo. À vista de qualquer um. Não caminhou em direção a uma rua escura. São muitas as ruas escuras do centro. Julio, porém, não a viu. Continuava absorto na espera por seu ônibus.
Uns faróis altos iluminaram a avenida. O rapaz tinha esperanças de que fosse o seu ônibus. Preparou-se para estender o braço e acenar para que parasse. Mas não era. O que passou por ele foi um caminhão qualquer. Como tantos outros. Angustiou-se um pouco. Teria de esperar ainda mais. Quando se tem pressa toda espera é muito longa. E ele mais do que pressa tinha medo de estar ali.
Julio era um bom rapaz. Bons sentimentos o animavam. Queria pouca coisa da vida. Pensava em ficar noivo, casar e ter uma família como a de seus pais. Trabalharia. Proveria seu lar. Como seu pai fazia. Sua esposa também poderia trabalhar. Não era machista. Era sim um tanto tímido e às vezes afoito. Nada demais. Era um jovem como os outros. Quem o conhecia lhe queria bem.
Quase vinte minutos no ponto. Estava ansioso. Já passava das dez. Assustou-se. Dois rapazes cruzaram a esquina. Caminhavam na direção do ponto onde estava. Conversavam baixo. Usavam bonés. Um deles fumava. Ambos vestiam bermuda, calçavam chinelos. Julio se inquietou. Pensou em atravessar a rua. Mas ficou muito nervoso para isso. Depois eles poderiam correr atrás dele e pegá-lo. Havia um módulo ali perto, mas sem policiais. Os dois iam se aproximando. Ele tentava manter a calma. Mas não conseguiu se conter. Cedeu ao impulso e correu para o meio da rua. Seu ônibus passou naquele instante. Os rapazes como ele voltavam para casa. O choque o lançou longe. E eles, que não lhe fariam qualquer mal, contemplaram atônitos os instantes em que agonizou e morreu.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Rosto de Deus


(A Marcos Vinícius, sj e a Zé Raimundo

Vejo o sol se pôr
e na brisa desta tarde que finda, meu coração é horizonte e saudade. Nessa paz descanso e espero ouvir os passos de quem no olhar me devolva o Éden perdido.

Da porta do meu quintal contemplo um dia claro. Dia de sol como qualquer outro. Um lampejo me inquieta. Deixo que uns poucos passos me levem além dali e logo estou perdido num vagar de lembranças. Sento-me naquele batente de tantos anos, sem pensar que sentava. A memória assenhoreava-se de mim.
Recordava os encontros há não muito passados. Revia o olhar calmo, o passo tranqüilo, a acolhida de quem me esperava e queria ver. E lembrava também de mim, ali, receoso de tudo quanto poderia dizer para além do recurso das palavras.
E quanta atenção à minha voz. Eram só retalhos de minha história o que eu apresentava. Mas a escuta tão terna me sacralizava, tornava-se o Tabor onde reboava a profecia que me restituía todo valor. Imenso o desconcerto daquela hora... No olhar de um outro o meu muito pouco ressignificado.
Eu nunca soube como retribuir tamanho dom. Minhas mãos, as tinha eu sempre vazias e é esse o fundamento de minha gratidão.
Torno a mim e sou todo contentamento. Deus me visitou e seu rosto era o de um amigo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Lúcia

Parou diante do espelho que havia ali pendurado na parede de seu já antigo quarto. Olhou-se com a profundidade da tristeza que naquela hora lhe tomava. Percebeu nas feições as marcas dos dias que lhes tinham ido. E eis que se reconheceu mais do que nunca desfigurada.
Não contava ainda cinqüenta anos e nem eram as rugas as marcas mais cruéis do tempo. Chegou até ali e não sabia o que fizera da juventude de seus anos. Casara-se uma única vez. Não tivera filhos. O marido, que aceitara como capricho do destino que lhe cabia, estava deitado, bêbado, praticamente desmaiado na cama de que há pouco se levantara. Não chorava. As lágrimas, rios em tantas horas, naquele momento sequer insinuavam-se nos seus olhos. Doía sim. Sentia uma dor que jamais seria capaz de expressar por palavras. Ainda mais ela que sempre falou pouco. Acostumara-se ao silêncio, mais que isso, resignara-se.
No espelho via um oposto ruim que lhe fazia contorcer-se por dentro. Seus olhos fundos, seu rosto magro, seus cabelos sem viço. Reconhecia-se uma triste figura. E assim, estática ante o reflexo que denunciava a tragédia de sua condição, quis gritar, pedir ajuda. Conteve-se, porém. Sabia que não haveria quem a escutasse. Era uma desgraçada que deveria terminar seus dias, que talvez por crueldade de Deus fossem ainda muitos, como os começou. Compreendia a insignificância de sua existência. Sabia-se um desastre do acaso. Não, não era menos-valia ou auto-piedade o que a fazia pensar assim. Apenas tinha consciência de si, da realidade perversa em que se deixara pôr.
Eram muitas as amarguras que amealhava naquele momento. Os sonhos que não tivera, os planos que não foram feitos, a vida que até ali era sorvida como um fardo. Jamais experimentara uma grande alegria, uma emoção que lhe tomasse inteira. Seus dias, ela os contava no itinerário que fizera entre a casa paterna e a da família que não construíra. Mas enrubescia só de pensar que poderia transpor os limites daquela sua condição. Estava mais do que convencida de que somente a morte poderia libertá-la daquele cativeiro. Esperaria que a grande dama sombria a visitasse, pois também não tinha coragem de antecipar a própria partida.
Porém, quando por entre as telhas alguns raios do sol que nascia iluminou aquele espaço, olhou ao redor de si e pela primeira vez estranhou-se naquele entorno. Um desinstalar-se já lhe movia. A reflexão não lhe entorpeceu como em tantas outras vezes. Prendeu o cabelo, pôs um de seus vestidos, o menos surrado que encontrou. Juntou numa sacola umas poucas peças de roupa. Saiu e fechou amedrontada a porta. Foi-se dali sem qualquer saudade, sem nenhuma despedida. Não fizera qualquer projeto, apenas sabia que era hora de ir.
Quando se percebeu sua partida, ninguém foi capaz de compreender seus motivos. E houve quem atribuísse à loucura aquele seu gesto. Acreditavam que se tornara uma louca errante pelo mundo. Mas não. Ela enfim havia descoberto que podia escolher o caminho de seus passos.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Seria feliz

Quando o conheceu era ainda uma menina. Tinha dezesseis quase dezessete anos. Namoraram por três anos e meio, depois ficaram noivos. Sua família apoiou sem reservas. Era o sonho de seus pais ver casadas todas as filhas. Ela, então, a mais velha, devia abrir caminho para as outras; dar o exemplo.
Ele gostava dela, ela sabia. Ela gostava dele, disso não duvidava. Não parecia um casal muito apaixonado, mas era por causa do jeito dele. Rapaz sério, muito responsável. Aos vinte e dois anos já era gerente de uma concessionária de carros, a segunda maior numa cidade de médio porte. Não poderia parecer meninote, dado às extravagâncias. Sua posição lhe impunha isso. Depois, o que importava era o sentimento que os unia e os planos para o futuro. Casariam, teriam filhos, uma casa bonita. Por certo seriam uma família feliz.
Sábado era sagrado. Chegava, dava boa noite a seus pais, que lhe tinham na conta de um rapaz de boa família, trabalhador, homem de futuro. Ela o conduzia à varanda, onde conversavam sobre os acontecimentos da semana. Talvez por isso a conversa fosse sempre a mesma. Beijavam-se, trocavam carícias. Ela, às vezes, ousava um pouco mais. Dava-lhe a entender que podia ir mais além nos carinhos, mas ele nunca lhe faltou com o respeito. Os pais dela jamais iam à varanda quando eles estavam lá. A irmã mais nova, sim, às vezes aparecia com umas conversas sem importância, nada que um olhar reprovador não corrigisse. Tinham, portanto, toda liberdade para sair um pouco da medida, mas ele se mantinha sempre muito comedido. Ela compreendia. Acreditava que ele queria esperar o tempo certo para maiores intimidades. Seu comportamento era de um lorde inglês. O que só tornava maior sua admiração por ele.
Algumas amigas, certa vez, insinuaram que ela deveria abrir os olhos com o namorado. Talvez ele não fosse tudo aquilo que ela imaginava. Não mostraram nada de concreto. Só fizeram algumas insinuações de que talvez ele a enganasse, que não gostasse dela realmente. Mas ela não deu importância. Devia ser inveja. Num mundo tão mudado é difícil encontrar um rapaz como ele, que queira casar, construir família. Disso estava mais do que certa e não deixaria que ninguém destruísse sua felicidade. É verdade que ele viajava muito por causa do trabalho e poderia ter uma amante em outra cidade, mas não admitiria tal pensamento. Não podia deixar-se envenenar. A confiança é a base de uma boa relação. E para evitar maiores aborrecimentos, afastou-se daquelas invejosas.
O tempo passou e se encarregou de avizinhar a data do casamento. Faltava apenas uma semana. Aquele era o último sábado em que se veriam na condição de noivos. Na semana seguinte seriam marido e mulher. E ela que se guardara como um botão, com justa ansiedade aguardava o momento em que seria flor aberta ao homem de sua vida. Seria só dele como nunca admitiu pensar ser de qualquer outro. Dali por diante arderia por ele sempre que a quisesse. Saberia ser esposa, amante e mãe. Sua vaidade seria vê-lo realizado como homem. Ele nunca lhe pedira isso. Jamais lhe fez nenhuma exigência. Parecia não ser da natureza dele lhe pedir alguma coisa. Chegava a ser um tanto indiferente. Mas ela sabia muito bem o queria. Seria feliz.
No horário de sempre chegou ele. E antes de ir sentar com ela na varanda, falou com seus pais como sempre o fizera. Sempre o mesmo tom cerimoniosamente seco. Era interessante ver que mesmo depois de tantos anos, ele ainda conservava aquelas formalidades. Quereria manter certa distância? Não, ela não via dessa forma, talvez alguém que olhasse de fora pudesse ter essa má impressão, ela não. Compreendia aquele seu jeito de ser. Sua família também nunca reclamou.
Naquele dia, no entanto, ele não estava o mesmo. Segurou suas mãos e pediu que o escutasse. Há muito quisera, começou, dizer o que lhe diria naquele momento, mas nunca achou meio. Ou faltava a coragem ou as circunstâncias não eram favoráveis. Sabia o quanto era importante para ela o casamento. Acreditava em seus sentimentos e também ele lhe queria muito bem. Ela, porém, não compreendia o rumo daquela conversa. Não poderia haver algo tão importante para ser dito naquela hora. O casamento era no sábado seguinte. O que ele quisesse lhe dizer poderia esperar. Teriam a vida inteira para revelar um ao outro o que quisessem. Era melhor tratar dos últimos preparativos da cerimônia. Isso era mais importante. Ele, no entanto, insistiu e como ela não quisesse lhe dar ouvidos, num rompante de ira e desabafo, disse que não haveria mais casamento. Não podia casar-se com ela, na verdade jamais quisera tal coisa. Se aceitara aquela situação foi por imposição das circunstâncias, as pessoas exigiam isso dele. E depois, não queria magoá-la. Mas casar nunca foi um real desejo seu. Estava decidido: aquele era o fim daquela história.
Não, ela não tinha condições de entender tudo aquilo. Não se sentia capaz. Via destruído o mundo que construíra e suas esperanças, seu futuro esvaírem-se por entre os vãos dos dedos. Foram cinco anos de sua vida empenhados na preparação das bodas. Como não haveria mais casamento? E os filhos, a família, a casa com que sonhara? Tudo desfeito? Tudo em vão? Ele só poderia estar brincando. Ele a amava ela sabia, sempre soube. Queria testá-la, ver o limite de sua paciência. Era isso. Só podia ser isso. E rindo entre o desconcerto e o medo, pediu que parasse. Ele a estava assustando com aquela brincadeira. Entretanto, ratificou ele tudo o que havia dito. E acrescentou que o motivo não era qualquer defeito nela, não. Ela era maravilhosa, seria uma esposa perfeita. Ele tinha absoluta certeza disso. Mas é que sua alma não cabia nos braços de uma mulher. Tinha em outros abraços o aconchego que realmente desejava. Amava e era amado. Completava-se. Estar com ela era negar-se e já não podia mais. Assumiria seu relacionamento com aquele outro de quem não diria o nome. Sabia muito bem o que queria. Seria feliz.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Aprendizado

Todos estavam passando com sua pressa, suas lidas, suas buscas. Uma multidão de rostos. Rostos múltiplos. Cansados, inquietos, aflitos, quando não impassíveis. Em comum mesmo tinham a indiferença com que não se viam. Tudo, portanto, na mais perfeita ordem. É assim o centro de uma cidade daquele porte num dia útil. Cada um com seus problemas para resolver, suas contas a pagar... A vida tem que ser ganha.
_ Filho meu tem que saber proceder!
Berrou alguém perturbando a paz daquele cenário. Um homem na massa de passantes, que lhe olhou perplexa e confusa, procurando compreender a razão do escarcéu.
_ Não criei filho pra isso! Essa vergonha minha família nunca teve. Não é agora que vai ter.
Ao seu lado só um rapaz, desconcertado, que lutava para disfarçar as lágrimas que insistiam em lhe iluminar os olhos, enquanto entre gestos desajeitados e frases desconexas, ensaiava uma argumentação que aplacasse a fúria do pai. Esforço vão.
_ Calado! Que isso não tem explicação – disse com a mão erguida ameaçando bater.
Alguns dos passantes concordavam com a sua atitude. Pai é para isso mesmo. Deve corrigir, ensinar o que é certo, diziam. Outros eram solidários com o rapaz. Achavam que a bronca deveria ser dada em casa, na intimidade do lar. Ali, na rua não. Era vergonhoso demais para o menino. É verdade que o gritinho que ele deu, ao se assustar com o choque de dois carros, não foi nada másculo, mas também não era pra tanto.
_ Eu já ouvi os vizinhos falando umas coisas suas, desse seu jeitinho. Mas eu estou lhe avisando: ou você se concerta ou eu lhe dou um jeito. Que isso pra mim é safadeza, falta de vergonha.
O moço não sabia mesmo como se defender. Desistiu, resignou-se. Restou-lhe somente esperar que o pai se acalmasse. Nada mais.
Aos poucos, os berros foram se tornando resmungos e os dois foram voltando ao anonimato dos passantes, seguindo na direção a que se propuseram antes do incidente. E as pessoas foram deixando de lhes prestar atenção. Tinham mais o que fazer. O jovem, entretanto, constrangido e magoado sentia a culpa de ter causado tudo aquilo e prometia a si mesmo que dali por diante seria homem. Aprendera: nunca mais se assustaria!