Eram quase dez horas quando Julio passou pela Praça da Bandeira. Voltava do teatro e com pressa ia para um ponto de ônibus que havia próximo dali. O centro no meio da semana naquele horário era estranho. Um deserto. Bem diferente do que era durante o dia. Gente indo e vindo, bancas sobre as calçadas, ambulantes, carros de som, pessoas gritando. Uma efervescência de tantos matizes que seria praticamente impossível descrevê-la em por menor.
Numa das lojas por que passava, alguns homens trabalhavam consertando a fiação. Conversavam e riam. Nem parecia que trabalharam o dia inteiro e que ainda ficariam ali até a madrugada. Estavam acostumados. Sabiam que o importante era entregar o serviço no prazo. Isso dava credibilidade à empresa. Julio olhou para eles quase sem os ver. Queria mesmo era chegar logo ao ponto. Tinha medo de estar ali naquele horário. Desejava que seu ônibus não demorasse a passar. E além do mais, estava cansado, com fome e teria de acordar cedo na manhã seguinte.
O rapaz era estudante. Também trabalhava. Ajudava os pais com as despesas de casa. Tinha dois irmãos. Um mais velho e outro mais novo que ele. Sua mãe o esperava, só dormiria depois que ele chegasse. Era sempre assim quando ele saia. Não saia muito. Preferia ficar em casa ou com a namorada. Namoravam há um pouco mais de um ano. Geralmente saiam juntos, mas naquela noite não.
Assim que chegou ao ponto, o celular vibrou no seu bolso. Não atendeu. Calculou o risco de ser assaltado. Estava sozinho, devia ter cuidado. Supôs que fosse sua namorada ou sua mãe. Quem quer que fosse teria de ligar depois ou esperar que ele ligasse.
Próximos dali uns mendigos perambulavam pela rua. Outros dormiam debaixo de marquises. E uma criança chorava ao colo da mãe que tentava acalmá-la. Mas Julio estava mesmo era ansioso por chegar em casa. Era indiferente àquele cenário.
O pai de Julio lhe propôs que entrasse numa auto-escola. Achava que ele devia ter uma moto. Era mais barato e mais prático que ficar esperando ônibus. Até prometeu ajudá-lo com as prestações do consórcio. A demora do transporte foi um argumento que o fez dar razão ao que o pai lhe tinha dito há alguns dias. Se tivesse uma moto já estaria em casa. Ponderou que poderia pegar um moto-táxi. Mas estava ali já uns dez minutos e nenhum havia passado. Táxi, não; seria caro.
Do outro lado da avenida, um carro parou do lado da igreja. Era uma igreja antiga. Há não muito tempo tinha sido completamente reformada. Ganhou nova iluminação e seus vitrais foram restaurados. Do carro saltou um desses homens que transformam todo o corpo para se parecerem com mulheres. Uma travesti. Tinha uns vinte e cinco anos talvez. Saltou e ficou por ali mesmo. À vista de qualquer um. Não caminhou em direção a uma rua escura. São muitas as ruas escuras do centro. Julio, porém, não a viu. Continuava absorto na espera por seu ônibus.
Uns faróis altos iluminaram a avenida. O rapaz tinha esperanças de que fosse o seu ônibus. Preparou-se para estender o braço e acenar para que parasse. Mas não era. O que passou por ele foi um caminhão qualquer. Como tantos outros. Angustiou-se um pouco. Teria de esperar ainda mais. Quando se tem pressa toda espera é muito longa. E ele mais do que pressa tinha medo de estar ali.
Julio era um bom rapaz. Bons sentimentos o animavam. Queria pouca coisa da vida. Pensava em ficar noivo, casar e ter uma família como a de seus pais. Trabalharia. Proveria seu lar. Como seu pai fazia. Sua esposa também poderia trabalhar. Não era machista. Era sim um tanto tímido e às vezes afoito. Nada demais. Era um jovem como os outros. Quem o conhecia lhe queria bem.
Quase vinte minutos no ponto. Estava ansioso. Já passava das dez. Assustou-se. Dois rapazes cruzaram a esquina. Caminhavam na direção do ponto onde estava. Conversavam baixo. Usavam bonés. Um deles fumava. Ambos vestiam bermuda, calçavam chinelos. Julio se inquietou. Pensou em atravessar a rua. Mas ficou muito nervoso para isso. Depois eles poderiam correr atrás dele e pegá-lo. Havia um módulo ali perto, mas sem policiais. Os dois iam se aproximando. Ele tentava manter a calma. Mas não conseguiu se conter. Cedeu ao impulso e correu para o meio da rua. Seu ônibus passou naquele instante. Os rapazes como ele voltavam para casa. O choque o lançou longe. E eles, que não lhe fariam qualquer mal, contemplaram atônitos os instantes em que agonizou e morreu.
Numa das lojas por que passava, alguns homens trabalhavam consertando a fiação. Conversavam e riam. Nem parecia que trabalharam o dia inteiro e que ainda ficariam ali até a madrugada. Estavam acostumados. Sabiam que o importante era entregar o serviço no prazo. Isso dava credibilidade à empresa. Julio olhou para eles quase sem os ver. Queria mesmo era chegar logo ao ponto. Tinha medo de estar ali naquele horário. Desejava que seu ônibus não demorasse a passar. E além do mais, estava cansado, com fome e teria de acordar cedo na manhã seguinte.
O rapaz era estudante. Também trabalhava. Ajudava os pais com as despesas de casa. Tinha dois irmãos. Um mais velho e outro mais novo que ele. Sua mãe o esperava, só dormiria depois que ele chegasse. Era sempre assim quando ele saia. Não saia muito. Preferia ficar em casa ou com a namorada. Namoravam há um pouco mais de um ano. Geralmente saiam juntos, mas naquela noite não.
Assim que chegou ao ponto, o celular vibrou no seu bolso. Não atendeu. Calculou o risco de ser assaltado. Estava sozinho, devia ter cuidado. Supôs que fosse sua namorada ou sua mãe. Quem quer que fosse teria de ligar depois ou esperar que ele ligasse.
Próximos dali uns mendigos perambulavam pela rua. Outros dormiam debaixo de marquises. E uma criança chorava ao colo da mãe que tentava acalmá-la. Mas Julio estava mesmo era ansioso por chegar em casa. Era indiferente àquele cenário.
O pai de Julio lhe propôs que entrasse numa auto-escola. Achava que ele devia ter uma moto. Era mais barato e mais prático que ficar esperando ônibus. Até prometeu ajudá-lo com as prestações do consórcio. A demora do transporte foi um argumento que o fez dar razão ao que o pai lhe tinha dito há alguns dias. Se tivesse uma moto já estaria em casa. Ponderou que poderia pegar um moto-táxi. Mas estava ali já uns dez minutos e nenhum havia passado. Táxi, não; seria caro.
Do outro lado da avenida, um carro parou do lado da igreja. Era uma igreja antiga. Há não muito tempo tinha sido completamente reformada. Ganhou nova iluminação e seus vitrais foram restaurados. Do carro saltou um desses homens que transformam todo o corpo para se parecerem com mulheres. Uma travesti. Tinha uns vinte e cinco anos talvez. Saltou e ficou por ali mesmo. À vista de qualquer um. Não caminhou em direção a uma rua escura. São muitas as ruas escuras do centro. Julio, porém, não a viu. Continuava absorto na espera por seu ônibus.
Uns faróis altos iluminaram a avenida. O rapaz tinha esperanças de que fosse o seu ônibus. Preparou-se para estender o braço e acenar para que parasse. Mas não era. O que passou por ele foi um caminhão qualquer. Como tantos outros. Angustiou-se um pouco. Teria de esperar ainda mais. Quando se tem pressa toda espera é muito longa. E ele mais do que pressa tinha medo de estar ali.
Julio era um bom rapaz. Bons sentimentos o animavam. Queria pouca coisa da vida. Pensava em ficar noivo, casar e ter uma família como a de seus pais. Trabalharia. Proveria seu lar. Como seu pai fazia. Sua esposa também poderia trabalhar. Não era machista. Era sim um tanto tímido e às vezes afoito. Nada demais. Era um jovem como os outros. Quem o conhecia lhe queria bem.
Quase vinte minutos no ponto. Estava ansioso. Já passava das dez. Assustou-se. Dois rapazes cruzaram a esquina. Caminhavam na direção do ponto onde estava. Conversavam baixo. Usavam bonés. Um deles fumava. Ambos vestiam bermuda, calçavam chinelos. Julio se inquietou. Pensou em atravessar a rua. Mas ficou muito nervoso para isso. Depois eles poderiam correr atrás dele e pegá-lo. Havia um módulo ali perto, mas sem policiais. Os dois iam se aproximando. Ele tentava manter a calma. Mas não conseguiu se conter. Cedeu ao impulso e correu para o meio da rua. Seu ônibus passou naquele instante. Os rapazes como ele voltavam para casa. O choque o lançou longe. E eles, que não lhe fariam qualquer mal, contemplaram atônitos os instantes em que agonizou e morreu.
3 comentários:
Caraca!!!
!!!
!!!
!!!
!!!
Você poderia dar aulas junto com Aleilton pow!
Tipo: eu ameiiiiiiiiiiii!
Fiquei impactada mesmo!
Você escreve muito bem seu estrupício!
poxa...
Fiquei até com vergonha do que ponho no meu blog agora...
Cê arraza praguinha...
Continua postando, vc tá me viciando nesse blog!
[bjmeliga]
ps.: é arraSa!
aff eu mesma me mato de vergonha!
xerO!
Menino...Vc tem noção do texto que vc escreveu???
Meu fioo!
Sou fâ da tua escrita viu?!
Sucesso pra vc!
O seu texto...Bem, vou roubar o adjetivo de Keu...É surpreendente!
Abraço!
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